NO BRASIL DE BOLSONARO, DESUMANIZAÇÃO E VIOLÊNCIA CAMINHAM DE MÃOS DADAS
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Toda barbárie começa necessariamente com a desumanização do outro, de algum grupo específico que passa a simbolizar o mal ou a impureza.
A propaganda nazista comparava os judeus a uma infestação de ratos e, quando o quadrinista Art Spiegelman escreveu sua obra Maus (“rato” em alemão), retratando a história de seu pai como sobrevivente do Holocausto, ele tomou a controversa decisão de representar os judeus na história como ratos, explicitando justamente esta desumanização que se deu durante a “Solução Final para a Questão Judaica”.
Ratos, porcos, vermes, cães, imundos, repugnantes, baratas, todas estas atribuições são utilizadas na desumanização.
Mas isto não se dá apenas contra minorias étnicas, religiosas ou políticas, às vezes, desumaniza-se toda uma classe social como costuma ocorrer no Brasil com os mais pobres. Este tem sido o legado, escravagista em grande parte, que legitima a percepção de pobres como subumanos, como indivíduos com menor dignidade e que merecem um tratamento diferenciado, isto é, menos digno.
O tenente-coronel Ricardo Augusto Nascimento, o novo comandante da Rota em SP, disse recentemente em uma entrevista concedida ao UOL que “se ele [policial] for abordar uma pessoa [na periferia] da mesma forma que ele for abordar uma pessoa aqui nos Jardins [região nobre de São Paulo], ele vai ter dificuldade. Ele não vai ser respeitado (…) Da mesma forma, se eu coloco um [policial] da periferia para lidar, falar com a mesma forma, com a mesma linguagem que uma pessoa da periferia fala aqui no Jardins, ele pode estar sendo grosseiro com uma pessoa do Jardins que está ali, andando (…) O policial tem que se adaptar àquele meio que ele está naquele momento”, ou seja, o policial deve tratar o pobre como um bandido potencial, enquanto resguarda o direito constitucional de presunção de inocência apenas para os ricos. Para o pobre é porrada, grosseria e insulto; para os ricos, gentileza e suquinho numa bandeja.
E o exemplo mais claro e triste disto foi a abordagem policial criminosa em Paraisópolis. A desumanização do pobre em sua expressão mais evidente.
Em essência, pouco tem a ver com o baile funk, mas sim com quem o frequenta. O assassinato de nove adolescentes por causa da atuação da polícia, além de ações posteriormente reveladas em vídeo nas redes sociais — como de um policial com uma vara esperando os jovens na saída de um beco, agredindo-os e rindo —, expressa uma aversão ao pobre tornada violência e justificada pela desumanização.
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Fonte: Henry Bugalho/Carta Capital




