CIDADES DO RN AMEAÇADAS COM AVANCO DO OCEANO

Avanço do oceano pode trazer ameaça para cidades no RN

O mar deverá ter seu nível elevado em cerca de 72 centímetros em alguns pontos da costa do Rio Grande do Norte neste século, segundo projeções com base no relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas, da Organização das Nações Unidas (ONU). Na prática, o aumento projetado de 72 centímetros para até 2100 pode significar um avanço de quilômetros do oceano em relação ao litoral, a depender da altura em relação ao nível do mar. Localizados em áreas mais baixas, os municípios da Costa Branca potiguar, por exemplo, seriam os mais afetados. Em Natal, os primeiros a sentirem os efeitos da invasão do mar seriam os bairros de Areia Preta, Ribeira, Ponta Negra e regiões próximas ao Rio Potengi, segundo especialistas ouvidos pela TRIBUNA DO NORTE.

A longo prazo, a elevação provoca riscos de inundações de núcleos urbanos de cidades costeiras do estado e comunidades próximas ao mar, ameaçando, inclusive, a atividade salineira em Macau, Porto do Mangue, Galinhos, Grossos e Areia Branca, municípios litorâneos com relevo de baixas altitudes. Além disso, o avanço do mar pode aumentar a frequência de ocorrência de eventos extremos, como ondas de calor, períodos prolongados de seca, tempestades, enchentes e ressacas.A projeção do relatório especial, que destaca os impactos do aquecimento global, aponta que a média mundial é de que o nível do mar suba cerca de um metro até o ano de 2100, mas com grandes variações por causa da diversidade do planeta. “Obviamente, nem todo lugar vai aumentar um metro. Vai ter lugar que vai aumentar mais do que um metro e lugares que vão aumentar menos”, explica o biólogo Guilherme Ortigara Longo.

Doutor em ecologia e professor do Departamento de Oceanografia e Limnologia, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (DOL/UFRN), Longo detalha que a expectativa é preocupante devido à velocidade com que o fenômeno vem acontecendo.

Ele afirma que entre 1900 e 2018, o mar avançou cerca de 20 centímetros. Em contrapartida, até 2100, ou seja, em 79 anos, a projeção é de que o índice chegue a um metro. “Com esse aquecimento exacerbado do planeta a gente começa a ter o derretimento das calotas polares, acontece um degelo muito grande. Degelando quantidades equivalentes a um país inteiro, acaba ocasionando esse aumento do nível do mar. As projeções daqui para o final do século variam até mais de um metro. Então é uma coisa muito rápida”, diz.
O relatório do IPCC estima ainda que o mundo caminha para atingir o limiar do aquecimento global de 1,5ºC em 2030, uma década antes do previsto, na comparação com a era pré-industrial. Nesse ritmo, a temperatura do planeta subirá 2,7ºC em 2100. “Muitas das mudanças observadas no clima não têm precedentes em milhares, senão centenas de milhares de anos. E algumas das mudanças já postas em movimento — como o aumento contínuo do nível do mar — são irreversíveis ao longo de centenas a milhares de anos”, diz trecho do documento.

E segue: “Para as cidades, alguns aspectos da mudança climática podem ser amplificados, incluindo o calor (já que as áreas urbanas são geralmente mais quentes do que seus arredores), enchentes devido a eventos de forte precipitação e aumento do nível do mar nas cidades costeiras”.

O aquecimento do planeta é o ponto chave para entender o fenômeno do avanço do mar. A emissão de gases de efeito estufa, como dióxido de carbono (CO2), metano (CH4), óxido nitroso (N2O), hexafluoreto de enxofre (SF6), entre outros, ajuda a formar uma espécie de “cobertor” na atmosfera que impede a passagem do calor para o espaço porque os raios solares batem na Terra e ficam acumulados debaixo dessa camada.
O professor Marco Túlio Diniz, coordenador do Laboratório de Geoprocessamento e Geografia Física (Laggef/UFRN), explica que o “cobertor” vai ficando mais grosso na medida em que os gases poluentes, como o carbono, são emitidos.

“Esses modelos que o IPCC simula são baseados na emissão dos gases de efeito estufa, principalmente o CO2. Todos esses combustíveis derivados do petróleo, como gasolina, diesel, carvão mineral, gás natural, têm uma concentração de carbono muito grande. O carbono vai aumentando na atmosfera e aí tem uma camada da atmosfera que concentra CO2, o que provoca o efeito estufa. Esse aquecimento da terra causa o derretimento das calotas polares e com isso a consequência é o aumento do nível médio do mar”, detalha.

O que fazer

O consenso entre os especialistas é de que não existe redução dos níveis de avanço do mar sem diminuição da emissão de gases poluentes. As medidas para mitigar os efeitos das mudanças climáticas dependem de um esforço coletivo e global, com uma série de ações coordenadas e simultâneas para frear o aquecimento do planeta, como estabelece o Acordo de Paris, um tratado internacional entre 195 países firmado em 2015.

“Para fazer isso a gente tem que rever algumas práticas nossas da sociedade, que é voltada para o consumo. Precisamos de uma indústria limpa e diminuir drasticamente o desmatamento. Só reduzir o que a gente emite ainda demorariam anos para fazer um efeito porque já colocamos muito na atmosfera. É preciso também tirar. Restaurar os ecossistemas naturais, as florestas, manguezais, cuidar melhor do meio ambiente e a gente precisa da ajuda de tecnologias que façam isso. Por isso que é tão difícil. Não tem uma ação só para resolver o problema, são muitas ações ao mesmo tempo para poder controlar”, afirma Guilherme Longo.

“Como a gente prevê um aumento do oceano, o que deveria ser feito era trabalhar para evitar que o oceano aumente sua altura de superfície. Seria trabalhar mecanismos para evitar que o planeta esquente mais. Continuar lançando gases de efeito estufa na atmosfera, que ocasionam o aquecimento do planeta, vai fazer com que tenhamos o aumento do nível do mar e o mar vai invadir a costa”, complementa o meteorologista Cristiano Prestelo.

TN 

Jacó Costa. Tecnologia do Blogger.